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Ainda há lugar à mesa.

20 de out.
3 min de leitura
mesa posta

Há uma mesa preparada. Tudo está pronto e os convidados já tinham sido chamados. Quando chega a hora do banquete, o homem que o preparou envia o seu servo com uma mensagem simples: «Vinde, porque tudo já está preparado» (Lucas 14:17). Mas aquilo que deveria terminar com pessoas sentadas à mesa termina, primeiro, com lugares vazios. Um tinha comprado um campo, outro tinha comprado cinco juntas de bois e outro tinha acabado de casar. Um após outro, começam a apresentar razões para não ir.

Talvez seja precisamente isso que torna esta parábola tão desconfortável. Jesus não descreve pessoas que desprezam abertamente o convite. As coisas que as impedem de ir também não são, em si mesmas, necessariamente más. Um campo, trabalho, casamento, responsabilidades. O problema está noutro lugar. Quando chegou a hora, outras coisas pareceram-lhes mais importantes do que o convite que tinham recebido.

Quando o coração está ocupado

É possível estarmos tão ocupados com a vida que deixamos de ter espaço para aquilo que verdadeiramente importa. Nem sempre nos afastamos de Deus através de uma grande decisão de rebeldia. Às vezes, afastamo-nos lentamente, enquanto enchemos os dias de coisas legítimas. Trabalho, família, projetos, responsabilidades, planos e preocupações começam a ocupar cada espaço disponível. Não dizemos que não queremos Deus. Apenas continuamos a dizer, através das nossas escolhas, que há sempre qualquer coisa que precisa de vir primeiro.

É aqui que esta parábola nos obriga a olhar para o coração. A questão não é apenas se amamos coisas más. A questão é se coisas boas se tornaram mais preciosas para nós do que Deus. Podemos conhecer a Bíblia, frequentar uma igreja, servir e continuar a viver tão distraídos que já quase não paramos para desfrutar do próprio Deus. Podemos ter uma vida cheia de coisas e, ainda assim, uma alma esfomeada.

Mas há algo extraordinariamente belo nas palavras daquele convite: "Tudo já está preparado." O servo não chama os convidados para ajudarem a preparar o banquete. Não lhes pede que tragam alguma coisa para merecerem o lugar. Eles são chamados a vir e a receber aquilo que outro preparou.

É difícil não vermos aqui um reflexo da beleza do evangelho. A salvação não começa com aquilo que fazemos por Deus, mas com aquilo que Deus fez por nós em Cristo. Não abrimos o caminho até Ele. Cristo veio até nós. Não pagámos a nossa dívida. Cristo pagou-a. Não conquistámos um lugar pela nossa justiça. Fomos recebidos pela graça. Na cruz, Jesus fez por pecadores aquilo que nenhum pecador poderia fazer por si mesmo. Por isso, o evangelho não é um convite para provarmos que somos dignos. É um convite para reconhecermos que precisamos de Cristo e recebermos, pela fé, aquilo que Ele já realizou.

Ainda há lugar

Esta parábola não nos permite apenas admirar a mesa. Obriga-nos a perguntar o que estamos a fazer com o convite. Talvez a nossa vida esteja cheia. Talvez existam responsabilidades reais, preocupações legítimas e coisas boas a exigir a nossa atenção. Mas haverá sempre mais alguma coisa para fazer, outro problema para resolver, outra tarefa para terminar, outra razão para adiar. E podemos passar uma vida inteira a dizer «depois» àquilo que deveria ocupar o primeiro lugar.

Talvez a pergunta não seja se temos tempo, mas o que consideramos suficientemente precioso para receber o nosso tempo. Os convidados da parábola não recusaram porque não tinham sido chamados. Recusaram porque, naquele momento, outras coisas lhes pareceram mais importantes. E Jesus deixa-nos diante da mesma pergunta: o que tem recebido o melhor da nossa atenção, do nosso desejo e da nossa disponibilidade?

Há convites que exigem que paremos. Que deixemos por momentos aquilo que estamos a fazer. Que saiamos da nossa rotina. Que reconheçamos que nem tudo o que parece urgente é realmente importante. Há momentos em que precisamos simplesmente de nos sentar, ouvir, receber e voltar a colocar o coração diante de Deus.

Talvez tenhamos enchido tanto a vida que já não sabemos deixar espaço. Espaço para Deus. Espaço para a Sua Palavra. Espaço para comunhão. Espaço para ouvir. Espaço para estar presentes sem estarmos preocupados com aquilo que vem a seguir.

E, no entanto, a voz do evangelho continua a chamar-nos para algo melhor do que uma vida permanentemente ocupada. Cristo não nos chama apenas a acrescentá-Lo à nossa agenda. Chama-nos a encontrarmos n’Ele o nosso maior tesouro. Porque podemos possuir campos, cuidar dos nossos negócios, construir uma família, cumprir todas as nossas responsabilidades e, ainda assim, perder de vista Aquele para quem fomos criados.

A mesa da parábola estava preparada. O convite tinha sido feito. O problema nunca foi a falta de lugar.

Talvez esta seja, então, a pergunta que precisamos de levar connosco:

Se há lugar à mesa, haverá lugar na minha vida?

"Vinde, porque tudo já está preparado."

Lucas 14:17


 
 
 

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