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A fé também se vive à mesa

9 de set.
5 min de leitura

Há uma tentação subtil na vida cristã: pensarmos que os momentos mais espirituais da nossa família são aqueles em que a Bíblia está aberta, todos estão sentados e alguém está a ensinar.

Esses momentos são preciosos. Devemos desejá-los.

Mas Deus não desenhou a fé para caber apenas neles.

A fé entra na cozinha. Senta-se à mesa. Viaja connosco no carro. Está presente quando os filhos discutem, quando os pais estão cansados, quando o jantar se atrasa, quando alguém responde mal e quando é necessário dizer: “Perdoa-me. Eu pequei contra ti.”

É precisamente aí, no lugar onde a vida acontece sem preparação, que os nossos filhos começam a perceber se aquilo que dizemos sobre Jesus é apenas uma verdade que conhecemos ou um tesouro que realmente amamos.


OS NOSSOS FILHOS ESTÃO A VER

Paulo escreveu a Timóteo:

“Sê um exemplo dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza.”1 Timóteo 4:12

Repara que Paulo não separa aquilo que Timóteo crê da maneira como Timóteo vive.

A fé torna-se visível.

Vê-se nas palavras.Vê-se no comportamento.Vê-se no amor.Vê-se na maneira como tratamos os outros.

Isto é particularmente sério dentro de casa porque aqueles que vivem connosco conhecem uma versão de nós que poucas pessoas conhecem.

Os nossos filhos não nos vêem apenas ao domingo.

Vêem-nos quando estamos cansados.

Ouvem a maneira como falamos do vizinho, do pastor, do professor, do familiar que nos magoou.

Percebem aquilo que acontece quando os planos não correm como queríamos.

Observam como lidamos com dinheiro, ansiedade, conflitos e frustrações.

E, pouco a pouco, estão a formar uma ideia sobre aquilo que significa seguir Jesus.

Por isso, uma das perguntas mais importantes que um pai ou uma mãe cristãos podem fazer não é apenas:

“Tenho ensinado os meus filhos sobre Deus?”

Mas também:

“Que Deus estão os meus filhos a conhecer através da forma como me vêem viver?”


ELES NÃO PRECISAM DE PAIS PERFEITOS


Esta verdade pode assustar-nos.

Porque sabemos quem somos.

Sabemos quantas vezes perdemos a paciência. Quantas palavras gostaríamos de recolher. Quantas vezes o nosso exemplo ficou muito aquém daquilo que ensinámos.

Mas o evangelho não nos chama a representar diante dos nossos filhos uma perfeição que não possuímos.

Chama-nos a mostrar-lhes um Salvador de quem também nós precisamos.

Paulo podia dizer:

“Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.”1 Coríntios 11:1

O centro não era Paulo.

Era Cristo.

É esta diferença que precisamos de compreender.

O objectivo da parentalidade cristã não é criar filhos impressionados com a bondade dos pais. É apontar os nossos filhos para a beleza de Jesus.

Por isso, até as nossas falhas podem tornar-se momentos de discipulado quando nos levam ao arrependimento.

Um pai que pede perdão ao filho não está a destruir a sua autoridade.

Está a mostrar que também vive debaixo da autoridade de Cristo.

Uma mãe que diz “eu estava errada” está a ensinar algo profundamente cristão.

Está a mostrar que o pecado é real.

Que o orgulho precisa de morrer.

Que o perdão é precioso.

E que a graça de Deus não é apenas uma palavra que usamos na igreja.

É aquilo de que precisamos dentro de casa.


A MESA TAMBÉM É LUGAR DE DISCIPULADO


Talvez tenhamos complicado demasiado o discipulado familiar.

Imaginamos grandes conversas espirituais, estudos perfeitamente preparados e crianças profundamente atentas.

Depois chega a vida real.

Há comida no chão. Alguém não quer comer. Outro interrompe. Estamos cansados. O telefone toca. Amanhã é preciso levantar cedo.

E pensamos que perdemos a oportunidade.

Talvez não.

Talvez essa seja a oportunidade.

Porque discipular não significa apenas transmitir informação bíblica. Significa ajudar alguém a perceber como a verdade de Deus encontra a vida real.

Quando agradecemos pela comida, estamos a ensinar que recebemos.

Quando escolhemos não responder com ira, estamos a ensinar domínio próprio.

Quando pedimos perdão, estamos a ensinar arrependimento.

Quando falamos de uma preocupação e depois oramos juntos, estamos a ensinar dependência.

Quando uma oração não é respondida como esperávamos e continuamos a confiar, estamos a ensinar que Deus continua a ser bom mesmo quando não compreendemos os Seus caminhos.

É assim que a teologia sai das páginas e entra em casa.


MAIS DO QUE OUVIREM QUE JESUS É PRECIOSO


Há algo ainda mais profundo.

Não queremos apenas que os nossos filhos saibam que Jesus existe.

Nem sequer queremos apenas que saibam muitas coisas verdadeiras sobre Ele.

Queremos que percebam que Cristo é precioso.

E isso levanta uma pergunta desconfortável para nós:

Conseguem eles perceber que Jesus é precioso para nós?

Quando perdemos alguma coisa que desejávamos, Cristo continua a ser suficiente?

Quando somos contrariados, a nossa alegria desaparece completamente?

Quando pecamos, escondemo-nos atrás do orgulho ou corremos para a graça?

Quando temos medo, os nossos filhos vêem apenas a nossa ansiedade ou também nos vêem procurar refúgio em Deus?

Não podemos produzir fé no coração dos nossos filhos. Esse poder pertence a Deus.

Podemos ensinar.

Podemos corrigir.

Podemos orar.

Podemos abrir as Escrituras.

Podemos dar exemplo.

Mas só Deus pode abrir um coração para contemplar a beleza de Cristo e crer.

Esta verdade não diminui a nossa responsabilidade.

Liberta-nos da ilusão de que somos o Salvador dos nossos filhos.


O EVANGELHO À SEGUNDA FEIRA


É relativamente fácil falar da fidelidade de Deus quando tudo está tranquilo.

Mais difícil é mostrar que acreditamos nela numa segunda-feira complicada.

Mas é precisamente aí que a fé cristã revela a sua beleza.

Cristo não morreu e ressuscitou apenas para transformar aquilo que fazemos durante algumas horas ao domingo.

Ele veio reclamar toda a nossa vida.

A mesa.

O casamento.

A parentalidade.

O dinheiro.

O descanso.

As palavras.

Os conflitos.

Os dias bons.

Os dias em que parece que estamos apenas a tentar chegar à hora de dormir.

Paulo escreve:

“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor.”

Tudo.

Há uma santidade silenciosa na vida comum quando ela é vivida diante de Deus.


UMA CASA QUE APONTA PARA JESUS


Um dia, os nossos filhos poderão esquecer muitas das coisas que lhes dissemos.

Talvez não se lembrem de cada devocional.

Talvez esqueçam algumas das nossas explicações.

Mas esperamos que, pela graça de Deus, fique gravada neles uma convicção:

Jesus era precioso naquela casa.

Não porque os pais nunca falharam.

Mas porque, quando falharam, regressaram a Ele.

Não porque nunca houve sofrimento.

Mas porque, no sofrimento, procuraram n’Ele esperança.

Não porque todas as orações receberam a resposta desejada.

Mas porque continuaram a orar.

Não porque a casa era perfeita.

Mas porque Cristo estava no centro de uma família imperfeita sustentada pela graça.

Talvez seja isto que os nossos filhos mais precisam de ver.

Não uma fé reservada para os momentos religiosos.

Mas uma fé que respira no meio da vida comum.

Uma fé que pede perdão.

Uma fé que agradece.

Uma fé que sofre e continua a confiar.

Uma fé que encontra em Jesus um tesouro maior do que tudo aquilo que este mundo pode oferecer.

Porque, no fim, não queremos apenas ensinar os nossos filhos a comportarem-se como cristãos.

Queremos apontá-los para Cristo.

E isso começa muito antes de abrirmos um estudo.

Às vezes começa numa conversa no carro.

Num pedido de perdão.

Numa oração simples antes de dormir.

Ou à volta de uma mesa.


Porque a fé também se vive à mesa.


 
 
 

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