À sombra do Deus que guarda
- 26 de jan.
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O telefone tocou. Do outro lado, a voz de uma enfermeira que não tentou suavizar a realidade: “ O Davi piorou.” Nesse momento, o mundo encolheu. O ar tornou-se pesado, o coração disparou e somos recordados, de forma brutal, que não temos o controlo de nada. Absolutamente nada.
E foi aí, no meio do medo, da urgência e da possibilidade real de perder um filho que não gritei, não discuti com Deus, nem tentei negociar. Eu descansei. Não por ser forte, mas porque já não tinha mais força. Limitei-me a dizer: “Senhor, ele é Teu. Sempre foi. Faz a Tua vontade. Se for para o levares para Ti, leva-o. Tem misericórdia.”
Isto não foi uma "fé bonita", foi fé no limite. Porque a fé cristã não é um espetáculo de convicção para impressionar a Deus, mas em saber Quem Ele é quando tudo em nós quer fugir.
A Bíblia nunca nos promete que os nossos filhos não sofrerão, nem que o pior será evitado. Promete, sim, que Deus continua a ser Deus quando o pior acontece. É aqui que o Salmo 121 deixa de ser um texto conhecido para passar a ser o nosso chão:
“Elevo os meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro?”
Esta não é uma pergunta teórica. É o clamor de quem percebeu que não existe resposta humana suficiente. Não há médicos, palavras nem garantias que bastem. E a resposta do salmista não aponta para soluções visíveis, mas para o Criador: “O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.”
O socorro não reside na ausência de sofrimento, mas no Deus que governa sobre ele.
O mesmo Deus que criou o universo não perdeu o controlo quando o telefone tocou. Ele não foi apanhado de surpresa. Eu fui, Ele não.
O Salmo continua e diz algo que, naquele instante, sustentou o meu coração: “Não deixará vacilar o teu pé, aquele que te guarda não dormitará.”
Eu podia estar em sobressalto e exausta, mas Deus não dormia. O guarda de Israel não se distrai, não falha turnos, nem fecha os olhos no meio da noite. O meu filho estava em estado grave, mas não estava fora da vigilância do Senhor. A esperança cristã não é a crença de que nada de mau acontecerá, mas a confiança de que nada sucede fora do cuidado soberano de Deus.
“O Senhor é quem te guarda, o Senhor é a tua sombra à tua direita.” Sombra fala de proximidade. Deus não observa de longe, Ele está perto, presente e fiel, mesmo no corredor de um hospital ou perante da possibilidade da despedida..
Ali compreendi algo tão doloroso quanto libertador: eu sou mãe, mas não sou proprietária. Os meus filhos foram-me confiados, não entregues para que eu os controlasse. A minha esperança não residia na minha capacidade de os proteger de tudo, mas em saber Quem os guardava melhor do que eu alguma vez poderia.
Esta confiança não nasce da minha estabilidade emocional, mas de uma fé moldada pela verdade bíblica. O mesmo Deus que guarda a entrada e a saída é o Deus que permanece quando não sabemos qual será o desfecho: “O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre.”
Desde agora no medo. E para sempre mesmo quando o caminho atravessa o vale. A esperança cristã não é a ausência de dor, mas a certeza da presença de Deus. E quando já não controlamos nada, mas confiamos n’Aquele que guarda tudo, o descanso acontece mesmo com o coração a doer.
O descanso mais profundo não nasce quando tudo está bem, mas quando paramos de tentar carregar o que só Deus pode sustentar.




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